Arquivo

Archive for Julho, 2011

Recorde histórico

Durante os dois anos em que vimos quase todos os recordes mundiais serem batidos por nadadores com os trajes, um dos poucos que sobreviveu foi um dos resultados mais impressionantes da história da natação. Os 14:34.56 de Grant Hackett foram estabelecidos em Fukuoka, no Campeonato Mundial de 2001. Hackett recebeu a coroa de melhor fundista do mundo do compatriota Kieren Perkins no ano anterior, em Sydney, quando foi campeão olímpico e cumprimentou aquele que era bi-campeão do 1500 pela medalha de prata.

Hackett reinou absoluto por muitos anos nessa prova e o ponto alto foi esse recorde mundial, média de absurdos 58.3. Após aquela prova, o australiano foi campeão mundial em Barcelona e Montreal, bi-olímpico em Atenas, campeão de Pan-Pacífico.Viu Mateusz Sawrimowicz ser campeão mundial em Melbourne. Perdeu a chance do tri-olímpico ao ser derrotado por Oussama Mellouli em Pequim. Viu Mellouli vencer também em Roma. Mas não viu um atleta sequer derrubar aquele tempo místico de 14:34.

No entanto, chegou a hora da história prosseguir. O chinês Yang Sun, treinado pelo mesmo Dennis Cotterell que fez um dos trabalhos mais vitoriosos da natação com Hackett, já vinha rondando esse recorde desde o ano passado, quando fez 14:35 para vencer os Jogos Asiáticos. Nunca haviam chegado tão perto do 14:34. Hoje, todo verdadeiro fã de natação aguardava ansiosamente pelo 1500 e por esse recorde mundial. E ele veio. O recorde mundial de Grant Hackett foi finalmente quebrado!

Sun mostrou usou todo seu talento, abusou do controle de sua prova e fez aquilo que muitos acahavam que demoraria mais alguns anos para acontecer. Abriu mais de 2 segundos acima da parcial de Hackett, manteve essa diferença durante quase toda a prova e, mesmo quando parecia que nem o final mais forte que alguém possa imaginar seria suficiente, o chinês fez o inexplicável. Após 14 minutos mantendo parciais entre 29.1 e 29.5, Sun perdeu a noção do que é natação ao fechar para 25.94. A diferença do trabalho de perna do chinês e de sua frequência de braçadas nos últimos 50 metros foi gritante em relação ao resto da prova. Ele nadou a prova inteira mantendo uma média de 27-28 braçadas a cada 50 metros, mantendo uma perna de 2 a 4 tempos. É um nado muito econômico, tão eficiente que não tem nem graça. O mais impressionante é que fica a impressão que ele ainda pode tirar alguns segundos do tempo que fez hoje. 14:34.16, novo recorde mundial.

Quem pensa que Sun apagou o nome de Hackett da natação mundial, está muito enganado. Sun exaltou ainda mais aquela prova magnífica que o australiano fez há 10 anos, é só ver pela reação de toda comunidade aquática para esse recorde. Hoje, definitivamente temos o novo rei das provas de fundo. Um novo capítulo se inicia para uma das provas mais interessantes da natação, e podemos esperar coisas muito grandes por parte de Yang Sun. Abaixo, cada parcial dessa prova histórica. A regularidade mostrada e os últimos 50 metros mais absurdos já vistos merecem ser apreciados.

27.08 / 29.17 / 29.44 / 29.37 / 29.49

29.30 / 29.48 / 29.40 / 29.54 / 29.16

29.51 / 29.22 / 29.50 / 29.15 / 29.43

29.21 / 29.37 / 29.29 / 29.50 / 29.37

29.34 / 29.35 / 29.31 / 29.23 / 29.40

29.55 / 29.51 / 29.25 / 28.58 / 25.94

 

56.25 / 58.81 / 58.79 / 58.88 / 58.70

58.73 / 58.65 / 58.64 / 58.66 / 58.87

58.69 / 58.54 / 58.63 / 59.06 / 54.52

 

4:51.43 / 4:53.55 / 4:49.16

 

7:18.24 / 7:15.90

 

Categories: Natação

Carismática

Julho 31, 2011 1 comentário

A palavra que melhor define Elizabeth Beisel certamente é carismática. Fora sua habilidade dentro d’água, que é incostestável, a nadadora da Universidade da Flórida contagia pela empolgação com que vai para suas provas e pela emoção que coloca na piscina a cada queda na água.

Beisel ainda tinha 16 anos quando nadou os Jogos Olímpicos de Pequim. Chegou como candidata a medalha, foi a melhor nas eliminatórias do 400 medley, mas terminou na quarta colocação nessa prova e na quinta no 200 costas. Em Roma, no último Mundial, foi quinta no 400 medley e conquistou sua primeira medalha em uma grande competição com o bronze no 200 costas.

Na etapa de ontem em Shanghai, mais uma vez ficou de fora do pódio, dessa vez com a quinta colocação no 200 costas. Mesmo assim, entrou confiante hoje para nadar o 400 medley, sorrindo como sempre. E dessa vez nadou a melhor prova da vida. Após passar bem atrás de Stephanie Rice no borboleta, Beisel cresceu no seu estilo mais forte e grudou na australiana. Nadou uma excelente parcial de peito (inclusive olhando para os lados durante a filipina para ver onde estavam as adversárias, uma cena incomum e que mostra as diversas possibilidades que a natação oferece) e assumiu uma boa liderança. No crawl, ela não deixaria escapar seu primeiro ouro em um Campeonato Mundial. Fechou para 1:01 e logo abriu o mais cativante sorriso da natação mundial. E continuou sorrindo por longos minutos, sorriso de campeã mundial.

 

 

Não canso de repetir que a natação precisa de personagens interessantes. Beisel é uma das mais interessantes nadadoras que temos atualmente, e por isso fiquei muito feliz com sua vitória em Shanghai. Abaixo, deixo o link de uma entrevista que ela concedeu à Swimming World após suas conquistas no campeonato da SEC (Southeastern Conference) no NCAA. Vale a pena ver pois retrata um pouco do carisma de que tanto falei nesse post.

 

Categories: Natação

Nova estrela

Desde o ano passado comecei a ler muitas reportagens sobre uma tal Melissa Franklin, nadadora ainda do high school no Colorado. Segundo as matérias, se tratava de uma atleta muito talentosa e que começava a quebrar recordes para sua idade nos Estados Unidos. ‘Missy’ rapidamente ascendeu ao cenário nacional, conquistando vaga para os mundiais de Dubai e Shanghai.

Nessa temporada, mostrou ser especial durante várias etapas do Grand Prix norte-americano, mostrando uma versatilidade que impressiona e muito talento nas mais diversas provas que disputou. Não foi raro vê-la destruindo no 50 livre, vencendo o 200 costas e brigando no 200 medley na mesma competição. Ao final do circuito, foi a maior pontuadora, e só recusou o grande prêmio em dinheiro prometido pela USA Swimming para manter a eligibilidade para disputar o NCAA quando terminar o high school.

Em Shanghai, iniciou sua participação anotando uma parcial de 52.99 no 4×100 livre. No 50 costas, prova não-olímpica para a qual não direciona sua preparação, foi bronze. No 4×200 livre, assombrou o mundo ao nadar com muito ímpeto e marcar 1:55.0, tempo que lhe daria o ouro na prova individual, à frente de Federica Pellegrini (é claro que a final da prova individual possui muitos fatores que não permitem garantir que ela ganharia o ouro, mas o tempo que fez e a maneira como nadou a prova foram realmente muito bons).

Ontem, precisou de apenas uma prova para se colocar entre as melhores nadadoras do mundo na atualidade. Que 200 costas maravilhoso, 2:05.10 muito bem nadados, com uma técnica que só não pode ser classificada como impecável pois não existe tal afirmação na natação. O legal é ver que ainda há muito espaço para melhora, como a saída, o trabalho submerso e as transições para o início do nado. Foi uma prova maravilhosa.

Daqui a dois anos ela provavelmente estará ingressando na faculdade. Sua boa situação financeira, a preocupação com a vida acadêmica e algumas decisões que já tomou em relação à possibilidade de virar profissional levam a crer que Missy quer fazer parte do NCAA. Toda e qualquer equipe universitária certamente já está bolando a melhor estratégia para tê-la no elenco, pois é o tipo de nadadora que é indispensável para qualquer programa da Divisão I. Stanford, California, Florida, tanto faz. O que importa é que ela continue evoluindo e maximizando seu talento que já a levou a um título mundial, tão cedo, aos 16 anos.

2012 é ano olímpico, e com ele virão novas responsabilidades para a jovem nadadora. A imprensa norte-americana certamente irá procurar todas as semelhanças possíveis com Michael Phelps. As ofertas para virar profissional serão tentadoras. Mais do que isso, todo mundo agora espera não um, mas vários ouros da atleta nos Jogos Olímpicos. Para isso, ela precisa definir o melhor programa possível, que a possibilite explorar sua versatilidade sem comprometer a qualidade de suas principais provas. Antes de chegar a Londres, precisará passar pela mais competitiva seletiva olímpica do mundo, em Omaha, Nebraska. Caso se classifique, chegará na Inglaterra com toda a expectativa de fazer coisas grandes por parte da maior potência mundial na natação, diferente desse Mundial, em que chegou como uma jovem revelação que poderia surpreender.

Katie Hoff passou por algo muito parecido em Atenas 2004 e sentiu a pressão. É de se entender quando se trata de uma menina de apenas 15 anos. Missy terá que lidar melhor com a situação em relação a sua compatriota. Aparentemente, a nova estrela da natação americana possui uma personalidade muito mais relaxada do que Hoff mostrava há 7 anos. Mas não conheço nenhuma das duas para afirmar isso, é apenas uma impressão. Realmente torço para que a evolução de Franklin seja constante e atinja um patamar muito alto em Londres. Não seu auge, pois com a idade e o talento que tem ela pode facilmente disputar muitas outras edições de Jogos Olímpicos e escvrever seu nome na história.

Melissa Franklin apareceu de vez, e tenho certeza que fará um bem enorme para a natação. Sua simplicidade, descontração e talento fora de série precisam ser exemplos para o nosso esporte. Gosto de imaginar que na mesma competição em que o maior nome da história da natação estará se aposentando outra lenda pode estar nascendo.

Categories: Natação

Bom pra natação

Que disputa sensacional entre Ryan Lochte e Michael Phelps no 200 medley em Shanghai. Phelps passou na frente, Lochte conseguiu assumir a liderança ainda no costas, mas o maior nadador de todos os tempos ficou firme e quase conseguiu o ouro. No final, o primeiro recorde mundial em piscina longa após a proibição dos trajes, incríveis 1:54.00 para Ryan Lochte. Phelps também fez um tempo absurdo, 1:54.16.

Tal duelo, que já vem amadurecendo há alguns anos, finalmente tem o equilíbrio absoluto que uma verdadeira rivalidade precisa ter. Lochte venceu os dois eventos que disputou contra Phelps nesse Mundial. Mais do que isso, superou o adversário em alguns de seus pontos fortes, destacando-se o trabalho de submerso, no qual Lochte é agora claramente superior.

Que bom pra natação. Nosso esporte só tem a ganhar com essa disputa entre os dois. Nada melhor do que um gênio das piscinas fazendo outro gênio se superar. Poucos esportes têm o privilégio de contar com uma rivalidade tão empolgante quanto a de Lochte-Phelps. Nem Federer e Nadal possuem mais essa química. Hoje, a disputa de maior destaque no esporte mundial é a da natação, e nós amantes desse esporte devemos nos orgulhar e apreciar seu último capítulo que virá em Londres, nos Jogos Olímpicos.

Isso porque será lá o último espetáculo do maior fenômeno que esse esporte já viu. Imaginem o quanto de motivação essas duas derrotas para seu companheiro não deram para Michael Phelps. Se ele é uma lenda de verdade, e todos sabemos que ele é, apareceu a motivação que o norte-americano precisava para treinar como treinou para Pequim. Na verdade, para treinar melhor, pois na natação se alguém treina igual ao que já treinou, já não é o suficiente. Enquanto ele estiver terminando a série mais difícil da semana em North Baltimore, Lochte estará fazendo de tudo para terminar uma mais difícil ainda em Gainesville.

Falta 1 ano para o duelo final. Vou contar os dias. E torcer para que seja ainda mais empolgante do que foi hoje. 1:52 no 200 medley, já pensou???

 

 

Categories: Natação

Natação…

Comecei a ver o Mundial de Shanghai sem a mesma empolgação que me tomou em Pequim, em Roma, em Dubai. Os acontecimentos recentes me deixaram um pouco desanimado para acompanhar a maior competição do ano.

Mas é hora da paixão pela natação falar mais alto.

Ontem tivemos o primeiro nadador batendo o tempo histórico de Pieter Van Den Hoogenband sem trajes, na abertura do 4×100 livre. O australiano James Magnussen fez absurdos 47.49.

Tivemos as vitórias empolgantes de Park e Federica no 400 livre, duas aulas de natação.

Hoje o norueguês Alexander Dale Oen protagonizou aquela que certamente será a melhor história da competição, vencendo o 100 peito e sendo o primeiro a quebrar a barreira dos 59 segundos sem traje. Muito mais do que isso, fez questão de mostrar a bandeira de seu país em toda e qualquer oportunidade que aparecia, tentando de alguma forma confortar um povo que ainda sente a dor da maior tragédia de sua história.

Também foi muito impactante para mim a imagem de Shiwen Ye, chinesa de apenas 15 anos, campeã do 200 medley, uma simples criança no lugar mais alto do pódio, extremamente tímida, sem saber ao certo como receber os cumprimentos das adversárias, com um olhar até mesmo assustado, mas certamente feliz. Para mim, uma imagem com muitos significados.

*

Tudo que quero agora é rever todos nossos atletas, nossos campeões brasileiros, e que eles carreguem nessa volta aos treinos a simplicidade de Ye e a vontade que os verdadeiros campeões possuem dentro da alma.

Categories: Natação

Sem título

Julho 1, 2011 3 comentários

Não vou julgar ninguém nesse post. Quase não li notícia alguma sobre esse último caso de doping pois o que menos quero saber no momento é se tal atleta é culpado ou não, qual o tamanho da suspensão ou qual substância tomou.

O que escrevo aqui é simplesmente aquilo que está passando pela minha cabeça no momento. A notícia que tivemos hoje me deixou muito triste e trouxe muita reflexão à minha mente.

A natação brasileira chegou a um ponto muito complicado. Não há nada pior do que uma sequência tão grande de casos de doping para nossa modalidade. E não digo isso em relação à exposição na mídia, à imagem da modalidade perante o público ou a qualquer outra repercussão que esses casos venham a trazer. Isso todo mundo sabe.

Digo isso por que a razão de tudo o que fazemos está cada vez mais enterrada. Cada vez mais, infelizmente nosso esporte está virando algo sujo, inescrupuloso, nojento. Isso que estamos vendo está fazendo a pessoa mais crédula de todas perder a inocência. Já não acredito mais nas pessoas. Cada caso é mais decepcionante que o outro. A falta de caráter está começando a reinar em nosso esporte. Peço desculpas por generalizações que venha a fazer, mas é o que o momento requer. Atletas já não ligam mais para o significado do esporte. Está faltando moral, vergonha na cara. E o pior de tudo é que há quem apóie essa situação.

Atletas buscam a vitória a qualquer custo. Aquilo que deveria ser o ponto alto de toda uma jornada está se tornando uma praga. Essa maldita obsessão por ser melhor do que os outros está acabando com nosso esporte. No final do ano passado, eu li dois textos relacionados à natação e separei dois trechos que resumem muito bem minha visão sobre nosso esporte.

O primeiro é de um jornalista norte-americano chamado Mike Gustafson. Perguntado sobre a possibilidade de crescimento da exposição da natação de seu país na mídia e as possíveis adaptações do esporte em razão da televisão, por exemplo, ele disse:

People swim because they love it. Not because of the money. Not because of the fame. Maybe we should keep it that way“. Ou seja, as pessoas nadam porque amam a natação, não por causa de dinheiro. Não pela fama. Vamos manter a natação dessa forma. VAMOS MANTER DESSA FORMA! É desse tipo de pessoa que precisamos na piscina todo santo dia treinando por um ideal. Não precisamos de pessoas que busquem atalhos para a tão desejada vitória. Desse tipo de “atleta”, precisamos nos livrar. E precisamos nos livrar de qualquer outro indivíduo que esteja envolvido nessa prática, seja ele um técnico, um médico, um parente, um amigo ou seja lá quem for.

A outra frase que carrego comigo e quero ter na mente enquanto ainda estiver envolvido com natação (e isso eu quero que seja para sempre), é do falecido nadador Francis Crippen, uma unanimidade entre seus ex-companheiros como um exemplo de dedicação. Em entrevista ao extinto site Swimnetwork, Francis disse:

“Every time I thought about what was going to happen, I knew I still wanted to swim, and I knew I could swim better. I did. That’s what I celebrate. The medal is nice, but it’s the journey, not the end result”. “Toda vez que eu pensava no que iria acontecer, eu sabia que eu ainda queria nadar, e eu sabia que eu podia nadar melhor. Eu sabia. É isso que eu comemoro. Conquistar a medalha é ótimo, mas o que importa mesmo é a jornada, e não o resultado final”. Precisamos de atletas que valorizem a jornada acima de tudo, antes da vitória. Jornada é fechar forte a série mais difícil da sua vida. É buscar a perfeição técnica que possibilita os melhores resultados. É levantar um quilo a mais na sua preparação física quando isso parece impossível. E é repetir tudo isso de novo. De novo. E quando parecer impossível, é levantar e repetir tudo isso pela última vez antes de seu objetivo final. Aí sim, o resultado final torna-se algo interessante. Seja qual for o tamanho da vitória, essa sim terá valor, pois terá sido conquistada a partir de uma jornada.

É isso que está passando pela minha cabeça desde que li a tal notícia. Tudo que peço é que prevaleçam em nosso esporte pessoas que valorizem a jornada por trás das vitórias. Tudo que peço é que as pessoas desonestas que estão sujando nosso esporte desapareçam desse ambiente e deixem lugar para quem realmente entende a essência da natação.

Que voltem com as roupas de borracha, isso eu aceito. Que coloquem molas no bloco de partida, não me importo. Que permitam o uso de pés-de-pato para todos, até isso eu entendo. Mas não busquem meios ilegais e desonestos na busca pela vitória. Não esqueçam a importância de se construir uma jornada antes do resultado final. Por favor, não me façam perder a admiração e o amor por aquilo que mais tem significado em minha vida. Esse é meu maior medo.

Categories: Natação
Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.